Galera

Dicotomia entre a casa e a rua: uma leitura de “Amor” e “A bela e a fera”, de Clarice Lispector

Jones Dari Goettert1 /Alexandra Santos Pinheiro2
Universidade Federal da Grande Dourados


Espaços: a casa significa a segurança; a rua, o perigo de viver

De forma geral, os narradores criados pela autora Clarice Lispector mergulham na subjetividade de suas personagens, e, pelo fluxo da consciência, revelam as inseguranças, os desejos e os sentimentos contraditórios do ser humano. No bojo das contradições, está a representação do espaço em suas obras. Em “Amor” e “A bela e a fera” o jogo entre a casa e a rua é significativo. A casa significa o lar, a segurança, a organização; a rua é o caos, a desordem, a síntese do perigo de viver. As práticas e sentidos espaciais definem e são definidos pelas relações desenvolvidas em cada lugar; mais que uma simples combinação mecânica entre espaço e relações, a combinação é dialetizada em “acumulação[s] desigual[s] de tempos” ou em “simultaneidade[s] de estórias-até-agora”, como apontam Milton Santos (1980 e 2004) e Doreen Massey (2008). Nosso pensar e nosso fazer “se moldam” e “são moldados” pelas relações ensejadas em cada lugar, definindo jeitos de falar, olhar, ouvir, sorrir, chorar, cheirar, sentir, andar, sentar, deitar, dançar, sonhar, imaginar, comer... de mexer o corpo, de mexer os pensamentos e de mexer as relações.

Todo lugar, por isso, construído em materialidades e imaterialidades únicas, define tanto o jeito com que praticamos e representamos o mundo como o jeito com que o mundo define práticas e representações sobre nós. Em entremeio, um conjunto múltiplo de situações espaciais define nossas aproximações e distanciamentos, nossos confortos e desconfortos e nossas seguranças e inseguranças na relação com o mundo, com pessoas, grupos e coletividades.

Em relação à dicotomia casa/rua presente nas narrativas de Clarice Lispector, é importante pensar como a discussão das relações de gênero possibilita compreender o sentido desses espaços a partir de um discurso historicamente construído. Margaret Mead (Sexo e temperamento em três sociedades primitivas, 19353) e Simone de Beauvoir (O Segundo Sexo, 19494), por exemplo, demonstram o quanto a casa sempre representou a estabilidade, a segurança, a proteção, principalmente, às mulheres. Primeiro, nas tribos primitivas, quando a mulher, por estar sempre grávida, necessitava ficar em casa para cuidar dos filhos já nascidos e daqueles que estavam por nascer.

Depois, com o surgimento da burguesia e sua consolidação como classe hegemônica do Modo de Produção Capitalista assegurada através das revoluções econômicas e políticas (industrial e francesa, sobretudo), a figura feminina permanece restrita ao lar, porque a ela caberia acompanhar a educação de seus filhos. Assim, ser mãe e estar em casa foi um aspecto determinante na vida da mulher. Beauvoir acredita que o amor materno, enquanto algo instintivo, é um mito e, portanto, é uma imposição alienante. A autora questiona posições, como a de Alfred Fouilleé, para quem o fato da mulher gerar o filho é justificativa suficiente para a dedução de que o seu lugar é o lar: “A fecundidade absurda da mulher a impedia de participar ativamente do crescimento dos recursos ao passo que ela criava novas necessidades”, afirmou Beauvoir (Beauvoir, 2001, p. 34-46).

Não por acaso, o espaço doméstico ainda é reservado à mulher. Ao homem é destinada a rua, de onde ele traz o alimento à família, reportando aos costumes das sociedades tribais (Mead, 2003). Assim, casa e rua são espaços tomados por sentidos muito diferentes, às vezes contrapostos. Estar – e estar é sempre estar em algum lugar –, por exemplo, em nosso quarto, em casa, e passar diante do espelho e nos vermos de relance pode suscitar sentimentos muito distintos daqueles que sentiríamos se passássemos por um “mesmo” espelho na rua. Talvez em casa nos dispuséssemos a sentar na cama e devanear sobre o tempo, percebendo nas rugas os anos que se aceleram cada vez mais. Na rua, nem cama e nem mesmo um banquinho para consolar frente ao movimento frenético de passantes humanos, veiculares, ventos ou brisas, frio ou calor... Nossos olhares sobre o “mesmo” espelho mudam a depender de onde (lugar) o espelho está, portanto, do lugar onde nós estamos.

Espaços de mais segurança sempre se contrapõem a espaços de maior tensão. Uns menos controlados; outros mais. Uns mais abertos; outros mais fechados. Uns nos quais a fala corre solta, “sem papas na língua”; em outros, as palavras medidas são a regra. Em uns, o corpo pode se mostrar sem medo; em outros, o corpo desnudo vira “atentado ao pudor”. Uns mais privados; outros mais públicos. Uns, anárquicos; outros, totalitários. Uns, da liberdade; outros, do encarceramento físico. Uns sufocados em uma vida sem sobressaltos; outros, cegos e mendigos, perambulando com suas feridas a mostra...

“O espaço liso e o espaço estriado, – o espaço nômade e o espaço sedentário, – o espaço onde se desenvolve a máquina de guerra e o espaço instituído pelo aparelho de Estado, – não são da mesma natureza”, reiteram Gilles Deleuze e Félix Guattari (1997, p. 179). Uns espaços – lisos – são dados a impertinências e a conexões novas, inusitadas e, por isso, transgressoras. Outros espaços – estriados –, mais rígidos e inflexíveis, precisam sempre o apoio de uma autoridade, de uma tradição, de acostamentos, de hábitos pertinentes porque ancoradouros da “moral e dos bons costumes”. Uns, rizomáticos; outros, arbóreos. Aqueles, abertos a relações imanentes porque destituídos de qualquer a priori; estes, fincados como raízes em uma terra dura, monocultora, transcendental e, por isso, avisando e avistando um mesmo passado, um mesmo presente e um mesmo futuro. Em espaços lisos, os devires, abertos e quiçá em multiplicidade; em espaços estriados, o futuro definido, fechado, o paraíso celeste, a eternidade.

Mas todo mecanicismo, organicismo e economicismo devem ser borrados para não cairmos em outro ismo, um certo “espacialismo” que se funda sobre dualismos e dicotomias de lados, partes ou margens impenetráveis.

Outras vezes ainda devemos lembrar que os dois espaços só existem de fato graças às misturas entre si; o espaço estriado é constantemente revertido, devolvido a um espaço liso. Num caso, organiza-se até mesmo o deserto; no outro, o deserto se propaga e cresce; e os dois ao mesmo tempo. [...] Há, portanto, um conjunto de questões simultâneas: as oposições simples entre os dois espaços; as diferenças complexas; as misturas de fato, e passagens de um a outro; as razões da mistura que de modo algum são simétricas, e que fazem com que ora se passe do liso ao estriado, ora do estriado ao liso, graças a movimentos inteiramente diferentes (Deleuze & Guattari, 1997, p. 180).

De qual espaço ou de quais espaços participamos, afinal?

E que não falemos apenas dos espaços altamente abstrativos como aqueles do global, do nacional, do regional, ou do modo de produção, da luta de classe, no neoliberalismo... Falemos mesmo dos espaços nossos de cada e de todo dia, daqueles, por exemplo, que nos encontramos ao acordar (o espaço da casa) ou daquele por onde nos locomovemos indo para o trabalho, para a escola, para o mercado, para a praça ou para qualquer outro lugar (o espaço da rua). Talvez o cotidiano demasiado cheio nos impeça de perceber que cada um desses lugares – o da casa e o da rua – são marcados e marcadores de ritmos e intensidades diferentes. Talvez, ainda, só em alguns momentos, por fatos insólitos, somos levados à reflexão das diferenças espaciais a tal ponto de constatarmos que mais do que apenas ser um, somos vários, pois, que se habitamos vários lugares diacronicamente, também vários lugares nos habitam em sincronia.

Nesse sentido, Clarice Lispector, nos contos “Amor” e “A bela e a fera”, escancarou como os espaços da casa e da rua se travestem e são travestidos de práticas e sentidos acumulados, estriados mais que lisos, definindo relações distintas em um e em outro lugar. Da casa para a rua e da rua para a casa, as protagonistas Ana (“Amor”) e Carla (“A bela e a fera”) expõem as contradições que os dois espaços produzem em um espaço terceiro, o corpo da mulher, feminino, transgredido e transgressor. Entre casa e rua, ou entre um pretenso lugar seguro e outro da insegurança, o corpo é dotado de práticas, sentidos e pensamentos “insanos”, reverberando em certa “cartografia complexa”, uma “territorialidade difusa – geográfica, linguística, corporal, disciplinar”, em que “novos saberes – sobre velhos saberes – se constroem, se enfrentam” [como apontou, sobre os movimentos de abertura de problemáticas das narrativas femininas, Leonor Arfuch (2008, p. 139)].

Os narradores que conduzem o enredo de Ana e de Carla trabalham com o jogo da segurança/insegurança. Brevemente, recordemos que, no conto “Amor”, o enredo se inicia no espaço da casa. Ana, a protagonista, casada e mãe de duas crianças, dedica-se exclusivamente às tarefas domésticas. O apartamento, sempre arrumado, era seu refúgio. Nele, ela vivia a “feliz” rotina de tirar o pó, costurar e cozinhar para os filhos e para o marido. Em um dia de compras, depara-se com um cego mascando chicles:

Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir - como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada - o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão - Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava - o bonde estacou, os passageiros olharam assustados (“Amor”).

Nesse instante, Ana desperta: “Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, [...]- tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro” e a imagem de um cego mascando chicles desorganiza o seu ser. Assustada, procura refúgio no jardim botânico, de onde sai apenas quando anoitece. Em casa, depois do jantar, ouve um estouro na cozinha e se angustia. O marido lhe acalma: “Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste”. Por fim, refugiada em seu apartamento, é conduzida pelo marido ao quarto: “É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver”.

Na narrativa “A bela e a fera”, o ponto de desequilíbrio é dado pela personagem do mendigo, que se aproxima de Carla na calçada em rua de Copacabana. Casada com um homem rico, mãe de três filhos, Carla não precisava se preocupar com nada. Viajava, tinha empregados, uma bonita casa. De repente, enquanto espera pelo chofer na calçada, é despertada por um “Um homem sem uma perna, agarrando-se numa muleta [...]: - Moça, me dá um dinheiro para eu comer?”. O mendigo e sua ferida aberta perturbam a personagem: ““Socorro!!!” gritou-se para si mesma ao ver a enorme ferida na perna do homem. “‘Socorre-me, Deus’, disse baixinho”.

Assim como o cego mascando chicles desperta Ana para a realidade, o mendigo leva Carla a refletir sobre sua vida, a ferida na perna do homem é real, seu mundo, não: “Eu – estou brincando de viver. No mês que vem ia a New York e descobriu que essa ida era como uma nova mentira, como uma perplexidade. Ter uma ferida na perna – é uma realidade”. Antes do contato com o cego e com o homem de ferida aberta na perna, as protagonistas pareciam não ter a clara consciência da existência vazia que levavam. A presença do elemento estranho desperta para a vida. Mas reviver não é tarefa fácil. É preciso primeiro recompor-se, duvidar de si e do mundo que sustentaram até então. Ao final, as duas voltam a adormecer, protegidas pelos maridos e pelas casas que lhes guardavam de todo “perigo de viver”.

A narradora criada por Clarice apresenta as vidas das personagens Ana e Carla de forma irônica e questionadora. O marido que assegura a Ana a tranquilidade do lar e a vida sem feridas de Carla podem ser tomadas como metáforas da história alienante, alimentada pelo sentido de casa: família, filhos, manutenção da ordem. De qualquer forma, é inegável que os narradores dos contos “Amor” e “A bela e a fera” ironizam justamente essa ideia do lar enquanto espaço de estabilidade. No lar, Ana e Carla encontram-se adormecidas. Na rua, são despertadas: “Ter uma ferida na perna – é uma realidade” (“A bela e a fera”).

Não deixa de ser instigante observar como esses narradores diferem da participação que Clarice Lispector teve, nas décadas de 1950 e de 1960, em colunas femininas de diferentes periódicos brasileiros5 . Utilizando de pseudônimos (Tereza, Helen e Ilka), a escritora aconselhou, sugeriu receitas culinárias e trocou segredos com as leitoras da época. Diferentemente da maioria dos narradores de sua produção ficcional, Clarice, em suas colunas, questiona as mulheres que, pela ambição de uma vida mais confortável, optam por trabalhar fora, privando seus familiares de sua presença: “querem ver sua casa provida de todas as coisas que significam conforto, bem-estar... E se esquecem de que privam os seus entes queridos de sua pessoa que, para eles, é o mais importante!” (2008, p. 37). Em outro artigo sobre o trabalho fora de casa, a colunista é ainda mais enfática: “É verdade que o apronto dos alimentos, a lavagem da roupa e limpeza da casa [...] não são das coisas mais agradáveis, mas nele a mulher põe amor e interesse [...], ao contrário do que ocorre com o trabalho fora do lar” (2008, p. 21).

Entre o espaço do ficcional e do jornalismo, as ideias de Clarice são cambiantes. Se a segurança do lar é ironizada em sua ficção, nos textos jornalísticos (seu ganha pão) a escritora perpetua a histórica divisão dos papeis e dos espaços reservados aos homens e às mulheres. As contradições entre os discursos talvez sejam fruto dos espaços ocupados por Clarice Lispector: a origem judaica; a relação com os filhos; o casamento; o divórcio. Essas muitas Clarices estão em seus narradores, que buscam apreender o fluxo de consciência de suas personagens, ora sensibilizando-se com o íntimo feminino ora ironizando-o, ora ridicularizando-o.

Assim, Ana e Carla podem ser as “sombras responsáveis por harmonizar o lar”, na visão da periodista Clarice Lispector; mas as personagens também são o grito de uma escritora marcada por contradições. Quem faz gritar em “Amor” e em “A bela e a fera” são o cego e o mendigo, sujeitos “reais”. São eles que despertam as duas mulheres para a realidade, para fora de seus mundos domésticos e confortáveis. O marido de Ana a “afasta do perigo de viver”, a faz adormecer; o cego lhe desperta, grita em seu mais profundo íntimo. O conto de fadas de Carla também se esfacela diante da ferida aberta do mendigo. Entre a ironia dos narradores e o despertar das personagens, está o olhar da escritora, conduzindo sua criação a partir de suas próprias contradições. Trata-se, portanto, de uma visão feminina sobre o sentido dos espaços ocupados pelas personagens:

O resgate do termo feminino é um contexto semântico eivado de preconceitos e estereótipos. Equivale a reescrevê-lo dentro de uma prática libertadora que objetiva tornar visível a expressão do que foi silenciado e colocado em plano secundário em termos culturais, histórico e político. […] quando se usa a expressão “escrita feminina” quer-se referir a texto de autoria feminina escrito do ponto de vista da mulher e em função de representação particularizada e especificada no eixo da diferença (Schmidt, 1995, p. 188-189).

As considerações de Terezinha Schmidt são pertinentes para delimitarmos, assim, a escrita de Clarice Lispector. É um olhar feminino que se comunica por meio de sua produção jornalística e ficcional. Clarice constrói identidades a partir de sua forma particular de refletir sobre si e sobre o mundo. Os espaços da casa e da rua são vividos intensamente pelas personagens dos contos “Amor” e “A bela e a fera”. Os narradores acompanham a estrutura/desestrutura das personagens Ana e Carla, divididas entre a tranquilidade de ser a “sombra” e o despertar para um mundo externo, metaforicamente marcado por cegos e por mendigos.

Os espaços de Ana e Carla

São muitas as diferenças entre os contos “Amor” e “A bela e a fera”. E muitas as semelhanças. São mulheres as personagens protagonistas: Ana e Carla. É meia para final de tarde: “Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela” (“Amor”6 ); “Olhou para o relógio: eram quatro horas da tarde” (“A bela e a fera”). Em um, um cego: “Foi então que olhou para o homem parado no ponto. [...] A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego” (“Amor”); e em outro, um mendigo: “Um homem sem uma perna, agarrando-se numa muleta, parou diante dela e disse: – Moça, me dá um dinheiro para eu comer?” (“A bela e a fera”). O cego “mascava goma na escuridão”; e o mendigo tinha uma “enorme ferida na perna”... E ambos os contos expõem Ana e Carla sós, na rua. Ana voltando das compras; Carla voltando do cabeleireiro. Rio de Janeiro. Um bonde para Humaitá. À espera do motorista em Copacabana... As duas parecem seguras de si, mas um cego e um mendigo desnorteiam-nas no meio da rua.

A rua se mostra como espaço passível de confusão, vacilante, desordenado, instável e inseguro e, por isso, perigoso:

O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. [...] Ele [o cego] mascava goma na escuridão. [...] O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir – como se ele a tivesse insultando, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada – o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão. [...] O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida (“Amor”).

O que faz a personagem olhar o cego com tanta insistência? Mergulhada na imagem do cego, desequilibra-se e o saco de tricô perde-se no chão. Desconcertada, vê romper a rede de compras... “o mal estava feito”:

A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido, não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram (“Amor”).

Crise, prazer intenso, calor abafado, força e vozes altas, o rebento de uma revolução, “o mundo em escura sofreguidão”: era Ana, ali, sem meios para parar e descer no ponto certo, pois já não mais havia ponto certo. “Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite” (“Amor”). Chama a atenção, no fragmento acima, a relação entre “ausência de lei” e o medo de “cair do bonde”. A lei parece estar aqui como a metáfora da organização que regia a vida de Ana: o sol que entrava no mesmo horário na janela, o pó para tirar, os filhos para cuidar e as refeições para preparar. O bonde é a própria vida que escolheu para si. Sacudida pela imagem do cego, a reação primeira é a de se segurar: “O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera” (‘Amor”, grifo nosso).

Em outro lugar carioca, mas também na rua, Carla fica entre a beleza ajeitada do “salão de beleza” e o “chofer [que ainda] não estava lá”, nos fundos do Hotel Copacabana Palace, na Avenida Copacabana, onde “tudo era possível: pessoas de toda espécie”. “Se tivesse marcado com ‘seu’ José na saída da Avenida Atlântica, o hotel onde ficava o cabeleireiro não permitiria que ‘essa gente’ se aproximasse” (“A bela e a fera”, p. 97). Essa gente não era um banqueiro, era um mendigo. : “– Moça, me dá um dinheiro para eu comer?”. E depois de dar uma nota de quinhentos cruzeiros (equivalente hoje, imaginemos, a cem reais) e falado literalmente, mas também em pensamentos com o homem das “gengivas quase vazias,”

Ela se encostou na parede e resolveu deliberadamente pensar. Era diferente porque não tinha o hábito e ela não sabia que pensamento era visão e compreensão e que ninguém podia se intimar assim: pense! Bem. Mas acontece que resolver era um obstáculo. Pôs-se então a olhar para dentro de si e realmente começaram a acontecer. Só que tinha os pensamentos mais tolos. Assim: esse mendigo sabe inglês? Esse mendigo já comeu caviar, bebendo champanhe? Eram pensamentos tolos porque claramente sabia que o mendigo não sabia inglês, nem experimentara caviar e champanhe. Mas não pôde se impedir de ver nascer em si mais um pensamento absurdo: ele já fez esporte de inverno na Suíça? (“A bela e a fera”, p. 98-99).

Há um olhar irônico por parte do narrador quando afirma que Carla resolveu pensar. O pensamento da personagem, entretanto, não consegue romper com seu mundo e com o que, para ela, seriam necessidades básicas: “esse mendigo já comeu caviar?” A rua desafia e se constitui, tanto para Carla como para Ana, menos um espaço para a instabilidade do “outro” (o cego e o mendigo) e mais um espaço da instabilidade de uma e de outra:

[Carla] Viu que não sabia gerir o mundo. Era uma incapaz, com os cabelos negros e unhas compridas e vermelhas. Era isso: como numa fotografia colorida fora de foco. Fazia todos os dias a lista do que precisava ou queria fazer no dia seguinte – era desse modo que se ligava ao tempo vazio. Simplesmente ela não tinha o que fazer. Faziam tudo para ela. Até mesmo os dois filhos – pois bem, fora o marido que determinara que teriam dois... (“A bela e a fera”).

[Ana] Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite – tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca (“Amor”).

Um cego fez Ana enxergar quão pouco apaziguada andava a vida. Um mendigo com uma ferida enorme mostrou para Carla as feridas da vida. A vida explodindo. A beleza desfeita. Tudo, agora, na mais confusa incompreensão. A ordem de uma coisa depois da outra e de um dia após o outro caindo no meio-fio. O que era cheio se fez espaço vazio. As máscaras, os espelhos, os jornais e os filmes exibiam agora a carne: uma ferida grande demais. O que parecia tão seguro se desmanchava no ar.

Toda a rede construída cuidadosamente por Ana estava ali, na rua, “suja de ovo”. “não conseguia orientar-se”: sem lugar, “des-orientada”, “des-locada”, justo ela que tinha tudo sob controle. Já para Carla, a linha que assegurava a coerência do “tempo vazio”, entre a condição de “secretária do banqueiro” à de esposa dele, arrebentara ali, no meio da rua, percebendo-se, agora, incapaz de “gerir a vida”. E já era tarde demais: como “meio sonho” a rodar Ana, o mundo das coisas “verdadeiras” começou a mostrar no jardim (Jardim Botânico) – como que no paraíso e em “trabalho secreto” – sua condição “mundofágica” (Goettert, 2011); e em Carla um mundo que “gri-ta-va”, gritante:

A crueza do mundo era tranquila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos. [...] o mundo era tão rico que apodrecia. [...] A moral do Jardim era outra. [...] um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. [...] A decomposição era profunda, perfumada. [...] O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno (“Amor”).

Teve uma vontade inesperadamente assassina: a de matar todos os mendigos do mundo! [...] Não. O mundo não sussurrava. [...] O mundo gri-ta-va!!! pela boca desdentada daquele homem. [...] Eu sou o diabo. [...] A mola do mundo é dinheiro? fez-se ela a pergunta. [...] ela é daquelas vagabundas que cobram caro de cada freguês e com certeza está cumprindo alguma promessa? (“A bela e a fera”).

A rua e suas relações trincavam a ordenação espacial dos mundos de Ana e de Carla. Ali, eram outras as acumulações desiguais de tempos e outras as simultaneidades de estórias-até-agora. O movimento da rua tornava instável a estabilidade de outro lugar, que parecia ordenar tanto a si como também todos os outros espaços: a casa. Como que em contramão, a insegurança da rua agora transbordava para a vida inteira, abarcando aquelas acumulações e simultaneidades que sempre pareceram extremamente ajuntadas e ajustadas à lógica ordenadora do tempo e, como em “Amor” e “A bela e a fera”, do espaço inteiro.

Ana, a casa e a ordem: apartamento, filhos, marido, cozinha, árvores, trabalho, cuidado, criando “algo enfim compreensível” com “cada membro da família distribuído nas suas funções”. Essa era a ordem, o ordenamento, a segurança. Tudo em seus devidos lugares, ancorados sempiternamente: temporalmente, aquele da construção, reprodução e manutenção da família; e espacialmente, o lar, o lugar no qual, “No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas”. E tudo ali era verdadeiro: os filhos, o marido... “Ana dava a tudo, tranquilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida”.

Carla, a casa e a ordem: “Pensou: ‘estou casada, tenho três filhos, estou casada’”. Era “Carla de Souza e Santos. Eram importantes ‘de’ e o ‘e’: marcavam classe e quatrocentos anos de carioca”. A ancoragem, a classe, a tradição.

Pensou assim, toda enovelada: “Ela que, sendo mulher, o que lhe parecia engraçado ser ou não ser, sabia que, se fosse homem, naturalmente seria banqueiro, coisa normal que acontece entre os “dela”, isto é, de sua classe social, à qual o marido, porém, alcançara por muito trabalho e que o classificava de “self-made man” enquanto ela não era uma ‘self-made woman’”. No fim do longo pensamento, pareceu-lhe que – que não pensara em nada (“A bela e a fera”).

Carla “praticamente não andava na rua”. A casa – e os seus outros lugares “privados” como o carro com motorista, o salão de beleza, as colunas sociais, as festas – tornava segura a vida, fazendo da existência a construção da normalidade sem experimentar qualquer outra relação que não se ajustasse à da ordem, mesmo que fingida porque “Todos, mas todos – sabem e fingem que não sabem” (“A bela e a fera”).

Ana andava “um pouco cansada”. A experiência mostrava que mesmo “sem felicidade se vivia”. E “na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto – ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido”. A casa e tudo em torno dela asseguravam “sua corrente de vida”.

Em “Amor” e em “A bela e a fera”, os espaços da casa e da rua se mostram cada um geograficamente definidos, localizáveis. A casa é aqui; a rua está lá. Ambos participam de uma geografia de espaços públicos e privados, sagrados e profanos, seguros e inseguros, “do bem” e “do mal”, serenos e confusos, de amores e de ódios, da “minha família” e do “mundo que se vire”... Espaços que definem e onde são definidas relações mais livres ou mais repressivas, menos iguais ou menos hierárquicas, respeitosas ou violentas...

Mas é preciso superar qualquer dicotomia, como aquela que considera a existência de espaços da harmonia de um lado e da discórdia de outro; tanto a casa como a rua são espaços de tensão e de negociação permanentes. E, mais que isso, um outro espaço os faz, de alguma forma, extremamente intercambiáveis, quase que trocáveis, em uma transitividade praticamente insustentável, mas real: o corpo, e em “Amor” e “A bela e a fera”, o corpo da mulher.

O corpo cansado de Ana vê e sente um cego. A crise eclode e o corpo se desorienta. O espaço da casa está em seu corpo e o caos se instaura no espaço da rua. Entre a casa e a rua, o corpo de Ana é o espaço em choque entre a normalidade e o frenesi, entre a pretensa segurança familiar e a pretensa tensão de relações em desvario – como nesta, em que um cego masca chicles. O corpo moldado em norma explode em desejo bruto: “Oh! mas ela amava o cego...” O mundo “verdadeiro” da casa (filhos, marido...) está em Ana, sacudida em corpo inteiro pela imobilidade aterradora de um cego, na rua.

Carla se olha no espelho: “Eu sou uma chama acesa!” e, por isso, depois de uma ferida aberta demais, conclui que “Se eu não fosse tão bonita teria tido outro destino” (“A bela e a fera”). O corpo se mostra como ele é: a beleza vendida e casada, o dinheiro, a casa arrumada, o cabelo, as festas, as colunas sociais, o marido e os filhos: “Que paciência tinha que ter para salvar a sua própria pequena vida”. Um corpo diante de outro corpo na rua: o corpo mutilado e em ferida é apenas reflexo do corpo de mulher...

Ela era...

Afinal de contas, quem era ela?

Sem comentários, sobretudo porque a pergunta durou um átimo de segundo: pergunta e resposta não tinham sido pensamentos de cabeça, eram de corpo. Eu sou o Diabo, pensou lembrando-se do que aprendera na infância. E o mendigo é Jesus. Mas – o que ele quer não é dinheiro, é amor, esse homem se perdeu da humanidade como eu também me perdi.

[...]

Pensou: o corpo é uma coisa que estando doente a gente o carrega. O mendigo se carrega a si mesmo (“A bela e a fera”).

O espaço e o tempo da casa estão nos corpos de Ana e de Carla, por isso pensam mais que pensamentos de cabeça. O espaço e o tempo da rua vão penetrando os corpos caseiros ao ponto do espaço do corpo se fazer errático, estranho, outro. São os corpos de Ana e Carla as experiências espaciais (e temporais) vivas, acumuladas e em simultaneidade. Os espaços da casa acompanharam os corpos de Ana e de Carla; agora, depois que “alguma coisa tranquila se rebentara”, seus corpos também passaram a ser acompanhados pelos espaços da rua. Os corpos, até então marcados pela casa, passam a ser, com a rua, também a expressão contraditória entre pretensos espaços de segurança e pretensos espaços de extravio.

Os espaços que usamos e os espaços que nos usam

Roberto DaMatta (1997), analisando a casa e a rua, insistiu que em nossa sociedade moderna, “[...] onde a parte (o indivíduo) é mais importante que o todo (a sociedade), o problema estaria sempre no coletivo e na multidão, esses ‘estados’ que seriam o inverso do indivíduo que o sistema consagra como normal e ideal” (Damatta, 1997, p. 29-30). No indivíduo se espacializaria, como ser de casa (ou como em dona-de-casa) a ordem, o normal e o ideal; e na sociedade a espacialização, como na rua (ou como em mulher-da-rua), da desordem, do anormal e da realidade descoberta.

A casa e a rua são mais que espaços em si: são espaços para si, isto é, construções sociais definidas e definidoras de relações que impregnam e marcam corpos de mulher, de homem, de velho, de criança, de casados, de solteiros, de gays, do recato e da sacanagem... Da mesma forma, a perspectiva de espaços para si ultrapassa a simplificação de que os espaços são construções apenas apriorísticas, absolutas; ao contrário, todo espaço se faz casa ou se faz rua pelas relações socioespaciais desenvolvidas em um e em outro lugar, na interação densa entre materialidades e imaterialidades.

Milton Santos e María Laura Silveira (2001) apontam a necessidade de, ao invés de se debruçar sobre a ideia de território em si, insistir com à de território usado. Debruçam-se na análise do território brasileiro, mas parece possível pensar os territórios usados em escalas múltiplas, desde a escala do corpo à global. Como desdobramento, o território usado é para cada sujeito o espaço que usa, e para cada coletividade, o espaço que usamos.

No entanto, também os espaços me usam, os espaços nos usam. Os espaços, condensados na trama que envolve objetos, ações e sujeitos, definem formas de pensar e de fazer. A disposição de um prédio, de um muro ou de uma rua, ou a ação de um gesto, de um olhar ou de uma fala em casa, definem tanto o uso do espaço como o espaço que nos usa, pois se um prédio, um muro ou uma rua podem sugerir até onde ir, um gesto, um olhar ou uma fala podem exigir que paremos, que recuemos ou que avancemos.

Em “Amor” e em “A bela e a fera”, os espaços são usados, mas também usam. Os espaços da casa, da rua e do corpo definem e são definidos pelas relações de aproximações e distanciamentos materiais e simbólicos. Não apenas as compras deformam o novo saco de tricô de Ana, mas todo um “tricô” territorial-existencial forma, desforma, reforma e transforma o corpo de Ana, na casa e na rua; no primeiro, a ordem; no segundo, a crise. Já Carla, “toda enovelada” e até então usando mais a casa, é agora usada pela rua à extremidade de sua existência “brincando de viver”: dali o “mundo gri-ta-va!!!”

A dialética espaço usado/espaço que usa é tensão permanente entre controle e descontrole, segurança e insegurança. A geografia envolvida em “Amor” e em “A bela e a fera” envolve as personagens e suas relações, sendo elas mesmas – personagens e relações – a condição dessa geografia. Acasos fazem rebentar a monotonia de temporalidades e espacialidades duras, fixas, seguras. Os espaços à imagem e semelhança da ordem ideal da casa, do casamento e da família são maculados – agora para sempre – por figuras espaciais estranhas: um cego que masca chicles e um mendigo sem uma perna e com ferida à vista.

Ana voltou para casa, abraçou o filho, fez o jantar para os irmãos e os seus; depois os parentes saíram, o marido deixou o café derramar e Ana parece ter se afastado do perigo de viver, soprando a pequena flama do dia... Carla foi enfim encontrada pelo motorista “seu” José, que disse logo: “– Hoje no baile a senhora se recupera e tudo volta ao normal”... O “problema” é que nenhuma geografia é apenas aquilo que espacialmente vemos, ouvimos, cheiramos, pois toda geografia mostra, mas também esconde. Por isso, inevitavelmente, quando seres pudicos andarmos eretos em donas ou donos de si pela casa ou pela rua, ali também estarão eles a nos mirar, a rir de nós, a gozar de nós: um cego mascando chicles e um mendigo sem uma perna e com uma ferida grande demais.

Porque o espaço e os espaços todos, como produções e produtores das múltiplas condições humanas, só de longe parecem tão sólidos, extremamente coesos, rigidamente demarcados ou assentadamente ponderados. Os espaços todos, quando expostos às suas mais ínfimas contradições, exalam cheiros antes nunca sentidos, cores nunca antes pintadas, buracos nunca antes percebidos, deixando suspensas suas armações que pareciam tão sólidas. Os espaços, por isso, são também condições um tanto que insustentáveis, indicando – apenas indicando? – que não é apenas o tempo que anda, que corre ou que passa, mas também o próprio espaço se revela cambiante porque é ele as próprias relações sempre em ajustes tensos, que podem durar sempre ou explodir a cada volta de esquina ou a cada volta para casa... E Ana e Carla, agora, parecem saber muito bem disso.

Notas

1Doutor em Geografia. Professor Adjunto da Universidade Federal da Grande Dourados, atua na graduação e no programa de mestrado e doutorado do curso de Geografia.

2Doutora em Letras. Professora Adjunta da Universidade Federal da Grande Dourados, atua na graduação e no programa de mestrado em Letras.

3Edição consultada de 2003.

4Edição consultada de 2001.

5Os textos reunidos por Aparecida Maria Nunes estão no livro Só para mulheres, publicado em2008 pela editora Rocco.

6No caso dos dois contos, para facilitar a leitura, optamos por determinar o nome do conto e não o ano de publicação da edição consultada.

Referências

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Damatta, Roberto. A casa & a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio de Janeiro, Rocco, 1997.

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