“A visão mais clara das coisas”
Susana
Margarida Rosa
Universidade
de Lisboa
A
sobrevivência da literatura reside num exercício sucessivo
de descrições de
sentidos possíveis que atribuímos aos textos. O que, num
dado momento, é
descrito como um sentido ideal, noutro momento é refutado por
outra descrição
que, por sua vez, é mais ideal que a primeira. Resulta desta
sucessividade um
aglomerado de interpretações, quer de natureza
histórico-literária, quer de
natureza crítica, cuja utilidade nem sempre é
legítima. Porém, como o autor, ou
poeta, tem várias dores, e a que lemos está a quatro
graus de distância da
primeira, a tarefa de leitura subjuga-se ao suplício
aparentemente eterno de
descrever o que nunca se poderá, assertivamente, definir.
Dada
a constatação, como ler Cesário? A
posição que a sua obra ocupa atualmente é
incómoda e carece de clareza. Acumularam-se sobre esta poesia,
ao longo do
tempo, papéis que, na intenção legítima de
a interpretarem idealmente, a
sufocaram: são eles as descrições
românticas, a que se seguiram descrições
realistas, parnasianas, impressionistas, sociais, políticas e,
inclusivamente,
sexuais. Propõe-se, deste modo, um exercício de leitura
que, desprovido, quer
das tendências histórico-literárias, quer das
invectivas interpretativas da
crítica, já desenvolvidas sobre O Livro
de Cesário Verde, tenha como ponto de partida, unicamente,
textos
primários.
|
“Nas nossas ruas, ao anoitecer, Há tal soturnidade, há tal melancolia, Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia Despertam um desejo absurdo de sofrer.” |
“Se eu não morresse, nunca! E eternamente Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! [...]”1 |
De uma estrofe à outra, retiradas
de «O Sentimento dum Ocidental», encontra-se a obra breve,
mas completa, de um
poeta que, não compreendido pelos seus contemporâneos, se
tornou inteligível somente
a partir da leitura que dele fez Fernando Pessoa. Este definiu
Cesário como seu
Mestre, entre outros, porém há que esclarecer os termos
em que essa afirmação é
feita.
Nas suas Páginas sobre Literatura e
Estética, Pessoa indicou os três poetas dignos,
segundo ele, da designação de mestres, respectivamente
Antero de Quental,
Cesário Verde e Camilo Pessanha. Note-se que, na
particularização que faz do
segundo, Pessoa recorre, senão dos mesmos termos, pelo menos de
semelhantes. Veja-se:
“Cesário Verde, who was the first to see in
Portuguese
Poetry, the clearest vision of things and their real presence which can
be
found in modern literature”;
“Com
Cesário se fundou entre nós a poesia objectiva,
igualmente ignorada entre nós
[…]”;
“O Segundo [Cesário Verde] ensinou a observar em verso; descobriu-nos a verdade de que o ser cego, ainda que Homero em lenda o fosse e Milton em verdade se o tornasse, não
é qualidade necessária a quem faz poesia”2
Veja-se o fragmento 130 da
autobiografia de Bernardo Soares:
“Vendo bem, tanto o Cesário Verde como estes foram para a minha visão do mundo coeficientes de correcção. Creio que esta é a frase, cujo sentido exacto evidentemente ignoro, com que os engenheiros designam o tratamento que se faz à matemática para ela poder andar até à vida”3.
A designação de Cesário como
coeficiente de correção está, por sua vez,
intimamente ligada ao uso repetido,
por Soares, da afirmação que o Pe. António Vieira
fizera acerca de Frei Luís de
Sousa, ou seja, que este último escrevera “o comum com
singularidade”4. Estes dois fragmentos
esclarecem, não só, a razão pela qual Pessoa
designou Cesário como seu Mestre,
como sugerem uma nova forma de abordagem à poesia deste
último. Pretende-se com
esta aproximação demonstrar que uma leitura correta de
Cesário só se torna
possível através da obra pessoana. E como?
Cesário
descreve o comum com singularidade e, nesse sentido, a sua poesia
‘anda até à
vida’. Os seus poemas mais longos constituem
descrições de paisagens físicas e
humanas, nos quais o comum se torna matéria poética
até então entendida como
inadequada ao género lírico: falo do trabalhador jovem
que morre num desastre,
da infeliz que engoma para fora, da vendedeira num bairro moderno, dos
trabalhadores salutares, dos mendigos que habitam os palheiros, dos
carvoeiros,
ou das varinas. Os espaços em que o poeta se move, citadinos e
campestres, são
descritos em íntima relação com as personagens que
os habitam, ou para
salientar as características positivas das mesmas, ou para
reforçar os seus
aspectos negativos, ou ainda para dar conta do modo como o
próprio poeta se vê
dentro do quadro que constrói. Coloca-se, então, a
questão: onde reside a
singularidade?
Em
alguns dos seus poemas, a vida quotidiana da cidade de Lisboa é
amplamente
descrita, o que nos poderia conduzir à afirmação
de uma possível continuidade
da poesia de Nicolau Tolentino; a natureza positiva dos valores que
Cesário
parece associar ao espaço campestre permitir-nos-ia apontar para
a sugestão de uma
nova arcádia; o relevo dado ao trabalho dos homens, emigrados
dos campos, por
contraposição ao luxo daqueles que habitam as
mansões dos bairros modernos da
cidade, ilustraria uma teoria sobre política do trabalho, ou uma
revolução
Em
«Nevroses», o poeta afirma que nas letras conhece “um
campo de manobras”. O
verso permite-nos depreender um trabalho poético consciente, no
qual cada
objeto, cada ação descrita, obedecem a um
propósito. Ao percorrermos poemas
como «Nevroses»,
«Cristalizações», «Num Bairro
Moderno», «Em petiz», «O Sentimento
dum Ocidental», «Nós», deparamo-nos com
descrições complexas, rigorosamente
trabalhadas, as quais Cesário pretendeu orientadas pelo Real e
pela Análise. Nestas
composições, cada objecto, cada acção, cada
sentido, é explorado até à sua
máxima fisicalidade, desde o volume obtido do esforço
muscular até à agudização
do som mínimo:
|
“[...] Dois assobiam, altas as marretas Possantes, grossas, temperadas d’aço; [...] E aos outros eu admiro os dorsos, os costados Como lajões!” («Cristalizações») |
“Por baixo, que portões! Que arruamentos! Um parafuso cai nas lajes, às escuras: [...]”5 («O Sentimento dum Ocidental») |
Assiste-se,
deste modo, à transformação gradual da
dicção pela transposição das realidades
comuns, até então entendidas como insignificantes e
inadequadas, para poesia.
Melhor se entende a novidade da linguagem de Cesário, quando se
associam
expressões como a
nevrose, a náusea, o “choro da nora”, a
“união sonora” do ferro e da pedra, o
amor aos ácidos, aos gumes e “aos ângulos
agudos”, a celebração do
funcionamento mecânico da cidade, aos versos decassílabo e
alexandrino,
métricas outrora dedicadas a temas nobres ou heróicos. A
estranheza das
expressões de Cesário só se desconstruiu nas
grandes odes de Álvaro de Campos:
“Que importa
tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e
rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel
e delicioso da civilização de hoje?”6
A
questão de Campos é pertinente: que importa tudo isto? O
exercício descritivo
de Cesário, e a consequente dicção a este
associada, revelam, não a importância
dos objectos, não a importância das ações
descritas, mas a pertinência da
percepção, da sensação:
|
“Eu tudo encontro alegremente exacto. Lavo, refresco, limpo os meus sentidos, E tangem-me, excitados, sacudidos, O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto.”7 («Cristalizações») |
“Como eu vos amo de todas as maneiras, Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!) E com a inteligência como uma antena que fazeis
vibrar!”8 («Ode Triunfal») |
Os seus poemas constituem um
exercício permanente e progressivo de adequação da
linguagem às percepções do
quotidiano. A extensão das composições pode,
inclusivamente, ilustrar esse
mesmo exercício: o trabalho poético sobre as imagens,
concretizado em
descrições que reforçam as
sensações, requer espaço para uma
progressão que
Cesário pretendeu feliz.
O tratamento que Bernardo Soares
confere à paisagem auxilia-nos na compreensão da natureza
da descrição de
Cesário. A referência ao semi-heterónimo pessoano,
que redigiu a sua
autobiografia sem factos em prosa, bem como a minha incorrência
no termo
‘descrição’ para abordar um trabalho
poético que lhe está distante no tempo,
como é o caso de Cesário Verde, podem parecer
incoerentes. Porém, não o são. No
que diz respeito a este último, quer a estrutura, quer a
extensão da
composição, são elementos fundamentais. A
descrição, e porque não em verso,
constitui-se o modo mais adequado de desenvolver e exercitar uma poesia
que
Cesário sabe ser nova, desconhecendo-lhe porém o nome.
Bernardo Soares difere
na prosa e na intenção. As inúmeras paisagens
descritas no Livro do Desassossego servem, por um
lado, o exercício
virtuosístico de um autor que por trás da máscara
se sabe genial e, por outro,
constituem-se como critério de arrumação de um
conjunto de textos tão variados
quantas as sensações experimentadas. Para Soares, a
paisagem, “tão admirável
como quadro, é em geral incómoda como leito”. A
construção das suas descrições
da cidade de Lisboa, se lhe permitem o exercício da virtuosidade
da sua prosa,
simultaneamente acentuam o seu mal-estar de ser, a sua
inquietação:
“As
pancadas de martelo à porta do caixoteiro soam com uma
estranheza próxima. Soam
grandemente separadas, cada uma com eco e sem proveito. Os
ruídos das carroças
parecem de dia em que vem trovoada. As vozes saem do ar, e não
de gargantas. Ao
fundo, o rio está cansado.
Não é
tédio o que se sente. Não é mágoa o que se
sente. É uma vontade de dormir com
outra personalidade, de esquecer com melhoria de vencimento.”9
A alternância entre percepções
exteriores e reacções interiores acentua a
inadequação do escritor aos
contextos que lhe são próximos. A sua
identificação com aspectos da paisagem
serve apenas como ponto de partida para reflexões introspectivas
e complexas:
“Pobres
das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho
tido de ter! São como
esta hora e este ar, névoas sem névoa, alinhavos rotos de
tormenta falsa. Tenho
vontade de gritar, para acabar com a paisagem e a
meditação”.10
A
definição que Soares apresenta de paisagem não
é menos significativa, ainda que
pouco clara. Ao negar a afirmação de Amiel, de que a
paisagem é um estado de
alma, Soares inverte os termos dessa mesma asserção e,
suportado no esforço de
objetivação que lhe é recorrente, adianta-nos que
é mais correto dizer-se que
um estado de alma é uma paisagem.
Em que
medida estes trocadilhos do Livro do
Desassossego são relevantes para a leitura de
Cesário? Creio que a
descrição que dele faz Alberto Caeiro auxilia o
esclarecimento da questão: de
acordo com o guardador de rebanhos, Cesário seria um
camponês, “preso em
liberdade pela cidade”11.
Substituição de um trocadilho por outro? A
confusão esclarece-se se atendermos
ao fato de que Cesário, ao recorrer ao comum, e ao
descrevê-lo com
singularidade, realiza um exercício poético, cuja
natureza é em tudo semelhante
àquele que encontramos no Livro do
Desassossego. Ou seja, Cesário descreve paisagens citadinas,
redigindo
todas as percepções que os espaços lhe sugerem,
quer seja em movimento, cor,
som, cheiro ou forma. Não se observa formalmente, como em
Soares, a alternância
entre a descrição e a análise dos efeitos que a
mesma produz no sujeito. No
entanto, o trabalho poético sobre a diversidade dos objectos de
imitação que a
cidade lhe sugere não resulta somente na alteração
singular da dicção. Cesário
percorre a cidade de Lisboa sem ir a lugar algum, revelando-se um
inadaptado e,
como tal, não se afastando do ajudante de guarda-livros que
descreveu a mesma
cidade, do cimo da sua janela. Para este, a Rua dos Douradores era a
sua
realidade toda; para Campos, Lisboa era o seu lar. E para
Cesário, o camponês
preso em liberdade pela cidade?
A
designação de Caeiro apresenta-nos os dois espaços
privilegiados da poesia de
Cesário, respectivamente o campo e a cidade. Tem sido amplamente
debatido o
valor de cada um dos contextos, como se ambos se pudessem tratar
diferentemente. E, no entanto, as palavras de Caeiro fornecem os
elementos
suficientes para se dissolver a discussão, no sentido em que,
tanto o campo,
como a cidade, na poesia de Cesário, têm valor igual.
Incorrer-se-ia em erro,
ao afirmar que Lisboa corresponde ao espaço privilegiado para o
desenvolvimento
de uma linguagem poética nova. Na sua grande maioria, as
conotações que Cesário
atribui à cidade são negativas e, no entanto, alguns dos
seus poemas mais belos
resultam das mesmas. Repetir-se-ia o mesmo erro, ao considerar o campo
como
espaço idealizado e oposto à força esmagadora da
cidade.
Apesar
dos quadros idílicos dos primeiros poemas se identificarem com o
espaço
campestre, e de este se associar à conciliação,
à união ou vida feliz, o campo
corresponde a um espaço idealizado, desconstruído de uma
forma desconcertante
no poema «Em Petiz». Se a classe trabalhadora e desprovida,
na cidade, é
privilegiada nas descrições de Cesário, e
associada a um determinado conjunto
de valores que se identifica pelo que é vigoroso e salutar, no
campo a mesma é
denegrida e desprezada pelo poeta:
“Fugia
com terror dos pobrezinhos!
E os
pobres metem medo! Os de marmita,
Para
forrar, por ano, alguns patacos,
Entrapam-se
nas mantas com buracos,
Choramingando,
a voz rachada, aflita.”12
A «Tabacaria» de Campos apresenta
uma correspondência com o poema de Cesário, resumindo
eficazmente o dilema de «Em
Petiz»:
“Fui até ao
campo com grandes propósitos.
Mas lá
encontrei só ervas e árvores,
E quando havia
gente era igual à outra.”13
Cesário
não é camponês, nem a cidade lhe basta na
matéria poética que lhe cede. A sua
inquietação, que se comunica na sucessividade de
descrições, foi brilhantemente
adjetivada por Caeiro, ao designar Cesário como estando
“preso em liberdade”. Repare-se
que não mencionei ‘cidade’, justamente porque o mais
importante do seu percurso
poético não diz respeito apenas aos espaços em que
se move, e aos objectos que
esses mesmos contextos lhe sugerem. Creio que a singularidade da poesia
de
Cesário vai um pouco mais além, e William Wordsworth
apresenta a explicação
adequada.
No
seu prefácio à segunda edição de Lyrical
Ballads, Wordsworth, ao prevenir o leitor quanto à
possível estranheza da
sua poesia, adianta que deve ser o sentimento desenvolvido no poema a
conferir
importância à ação e situação,
e não o contrário14. Ora, a
singularidade dos incidentes descritos por
Cesário, em poemas como «Num Bairro Moderno»,
«Cristalizações» ou «Em Petiz»,
não
nos conduz à questionação de sentimentos; capta,
sim, a nossa atenção sobre as
personagens poetizadas, as suas ações e os seus
movimentos. Onde pára então o
sentimento? Terá a singularidade desta poesia chegado ao ensaio
de uma teoria
sobre o fingimento?
A descrição do comum
com singularidade
Esta
composição, numa primeira leitura, em nada parece diferir
de «Cristalizações»,
ao descrever o reboliço da cidade que anoitece: os carpinteiros
regressam,
enfarruscados, de um dia de trabalho, dois dentistas conversam à
varanda, os
estabelecimentos encerram, e as luzes de Lisboa vão-se,
gradualmente,
acendendo; o tinir das louças nos hotéis da moda
lembra-nos as casas apalaçadas
“num bairro moderno”; o Camões, que fora pedinte no
poema «Em Petiz» é agora
uma estátua velha, rodeado de pimenteiras. As semelhanças
são óbvias e
pertinentes, na medida em que «O Sentimento dum Ocidental»
contém,
metonimicamente, a obra toda de Cesário. Este exercita, de modo
singular, a
procura de uma linguagem poética que se adeque à sua
inquietação. O ritmo da sua
descrição, despoletado pelo “desejo absurdo de
sofrer” anunciado no início do
poema, dá-nos a imagem exata de uma cidade inteira que se
recolhe e,
simultaneamente, a de um poeta que, introspectivamente, se reflete a si
próprio.
|
“Semelham-se a gaiolas, com viveiros, As edificações somente emadeiradas: Como morcegos, ao cair das badaladas, Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros. |
Voltam os calafates, aos magotes, De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos; Embrenho-me a, a cismar, por boqueirões, por becos, Ou erro pelos cais a que se atracam botes.” |
A
paisagem transforma-se assim, à semelhança do
exercício de Soares, num estado
de alma que se quer clarificado. E para que tal aconteça, o
‘ver’ de Cesário é
necessariamente outro. Até esta composição, o
poeta achou sempre assunto a
quadros revoltados, e virtuosisticamente ensaiou formas de
composição diversas,
recorrendo insistentemente a vocábulos do campo da pintura:
recordemos a
metamorfose da vendedeira de legumes numa criatura que em tudo
pareceria saída
do pincel de Arcimboldo, o pic-nic de
burguesas ou os quadros campestres de «Nós».
Porém, em «O Sentimento dum
Ocidental», o poeta descreve com uma “luneta de uma lente
só”. O olhar de
Cesário já não é apenas aquele que capta a
realidade substancial das coisas, mas
sim aquele que Wordsworth designou na penúltima
seção de The Prelude como o
‘intellectual eye”15. Este, designando-se como peregrino que,
através do poema que se vai construindo, procura a mais alta
Verdade
(XI:392-3), encontra na trivialidade das coisas passageiras a
possibilidade da
mesma:
“[...] the mind, intoxicate
With present objects and the busy dance
Of things that pass away, a temperate shew
Of objects that endure, and by this course
Disposes her
[...] To seek in Man, and in the frame of life,
Social and individual, what there is
Desireable, affecting, good or fair,
Of kindred permanence, [...]”
(XII:33-41)
A poesia de Cesário, por um lado, não se
afasta da
proposta de Wordsworth: o percurso aparentemente acidental pelas ruas
da cidade
constitui-se como recurso poético que estrutura uma outra
progressão, interior,
através da qual o poeta busca igualmente a sua verdade, isto
é, um livro que
exacerbe. Por outro lado, e contrariamente a Wordsworth, Cesário
não redige com
a consciência do valor da sua poesia. A sua progressão na
cidade equivale, no
plano da redacção, à formulação e
reformulação de percepções, como
exercício
continuado de uma linguagem nova. Este trabalho é claramente
ilustrado pelas
referências recorrentes ao impacto das percepções
no sujeito que as observa,
traduzindo a consciência do poeta que, ao exercitar
possibilidades de poesia,
analisa a sua forma de ver, quer o mundo, quer o modo como se posiciona
no
mesmo:
|
“E o fim da tarde inspira-me; e incomoda! [...] E eu desconfio, até, de um aneurisma Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes; [...] |
“E eu sonho o Cólera, imagino a Febre, Nesta acumulação de corpos enfezados; [...] Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso Ver círios laterais, ver filas de capelas, [...]” |
E esta posição não é
confortável.
Cesário tematiza, pela primeira vez em português, a
consciência da inadaptação,
quer em relação aos contextos em que vive, quer a uma
poesia que, sem que se
apercebesse, estava já concretizada. A
questionação do seu talento, que fora
abordada no poema «Nevroses», é retomada n’
«O Sentimento dum Ocidental» e com
uma conotação profundamente negativa, mas dúbia,
nas secções III e IV do poema.
Por um lado, os versos “E eu, que medito um livro que exacerbe,/
Quisera que o
real e a análise mo dessem:[...]” e “Não
poder pintar/ Com versos magistrais,
salubres e sinceros,[...]” reforçam a persistência
do poeta na sua busca pela
linguagem poética que, idealmente, seria bem recebida pelos seus
leitores. Por
outro lado, o modo como Cesário trata a figura de Camões
não deixa de ser
intrigante. Em «Nevroses», deparamo-nos com a
referência a uma epopeia morta,
rasgada no fundo da gaveta; no poema «Em Petiz»,
Camões não se distingue dos
restantes mendigos que pedem esmola nos campos senão pela sua
pala verde; e n’
«O Sentimento dum Ocidental», a figura do épico de
outrora ergue-se como
estátua velha. Atendendo ao fato de que esta última
composição integrou uma
edição comemorativa do tricentenário da morte de
Camões16, torna-se evidente que
Cesário, mesmo exercitando
possibilidades poéticas novas, se demarca relativamente ao
único poeta, cujo
génio poderia ensombrar a sua poesia. A mesma angústia
seria fortemente sentida
por Fernando Pessoa.
Álvaro
de Campos traduz, de modo sublime, a inquietação de
Cesário em «O Sentimento
dum Ocidental», no segundo excerto de ode, ao afirmar:
“Cada
rua é um canal de Veneza de tédios
E
que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das
ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó
do «Sentimento de um Ocidental»!
Que
inquietação profunda, que desejo de outras coisas,
Que
nem são países, nem momentos, nem vidas,
Que
desejo talvez de outros modos de estados de alma
Humedece
interiormente o instante lento e longínquo!
Um
horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
Um
pavor terno e líquido, encostado às esquinas
Como
um mendigo de sensações impossíveis
Que
não sabe quem lh’as possa dar...”17
É justamente a inquietação
profunda que constitui o sentimento do ocidental que, procurando pelo
exercício
poético uma nova linguagem para a poesia, se tornou, na sua
análise,
estrangeiro.
A
tematização da consciência íntima das
coisas, elaborada poeticamente pelo
desdobramento do poeta, simultaneamente, naquele que observa a
circunstancialidade e no que a pensa escrevendo, inaugura na literatura
portuguesa uma singularidade que só pode ser verdadeiramente
compreendida
recorrendo a outra poesia. A leitura que Fernando Pessoa fez de
Cesário, multiplicada
pelos seus heterónimos, é ainda hoje a mais atual. O
exercício descritivo de
Bernardo Soares, a inadaptação de Álvaro de Campos
ao caos das suas sensações,
e o objetivismo de Caeiro na visão da natureza como partes sem
um todo, são
extensões do sentimento deste ocidental, que permanece numa
posição
histórico-literária pouco definida e justa. A sua obra,
ainda que breve, é
completa, e atesta a possibilidade de a poesia ser, mesmo quando parece
não
existir a linguagem adequada que a possa expressar:
“Se eu não
morresse, nunca! E, eternamente,
Buscasse e
conseguisse a perfeição das coisas.”18
Notas
1 VERDE,
Cesário. Cânticos do Realismo e Outros
Poemas. Teresa Sobral Cunha
(Ed.). Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2006.
«O Sentimento dum Ocidental»,
I:1, p. 132; IV:4, p. 137.
2 PESSOA,
Fernando. Páginas sobre Literatura e
Estética. Organização,
introdução e notas de António Quadros. Mem
Martins:
Publicações Europa-América, 1986,
pp.
126-129.
3
SOARES, Bernardo. Livro do Desassossego.
Richard Zenith (Ed.). Lisboa: Assírio & Alvim, 1998. Frag.
130, p. 150.
4
Cf. Idem, Ibidem, Frag. 83, p. 112.
5
Cf. VERDE, Cesário, op. cit.,
«Cristalizações», p. 123; «O Sentimento
dum Ocidental», IV:2, p. 136.
6
Vide BERARDINELLI, Cleonice (Ed.). Poemas
de Álvaro de Campos. Lisboa:
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990. «Ode Triunfal», vv.
207-210, p. 72.
7
Cf. VERDE, Cesário, op.cit., «Cristalizações»,
p. 124.
8
Cf. Poemas de Álvaro de Campos, «Ode
Triunfal», vv. 87-90, p. 68.
9
Cf. SOARES, Bernardo, op.cit., Frag.
78, p. 108.
10
Cf. Idem, ibidem, Frag. 79, p. 109.
11
CAEIRO, Alberto. Poesia. Fernando
Cabral Martins e Richard Zenith (Ed.). Lisboa: Assírio &
Alvim, 2004. Poema
III, p. 26.
12
Cf. VERDE, Cesário, op. cit., «Em
Petiz»,
II:1-8, p. 119.
13
Cf. Poemas de Álvaro de Campos. vv.
29-31, p. 197.
14 WORDSWORTH, William, COLERIDGE, Samuel T. Lyrical
Ballads. R. L. Brett and A. R.
Jones (Ed.). London; New York: Methuen, 1963, p. 248.
15 WORDSWORTH, William. The Prelude 1799,
1805, 1850. J. Wordsworth, M. H. Abrams, S. Gill
(Ed.). New
York; London: W. W. Norton & Company, 1969. Book XII:57.
16
«O Sentimento dum Ocidental» integrou o número
especial do Jornal de Viagens que, em 1880, celebrou o
tricentenário da morte
de Luís de Camões.
17
Cf. Poemas de Álvaro de Campos,
Excerto de Ode II:114-125, pp. 78-79.
18
Cf. VERDE, Cesário, op. cit., «O
Sentimento dum Ocidental», IV:4, p. 137.
Bibliografia
BERARDINELLI,
Cleonice (Ed.). Poemas de Álvaro de
Campos. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1990.
CAEIRO,
Alberto. Poesia. Fernando Cabral
Martins e Richard Zenith (Ed.). Lisboa: Assírio & Alvim,
2004.
PESSOA,
Fernando. Páginas sobre Literatura e
Estética. Organização,
introdução e notas de António Quadros. Mem
Martins:
Publicações Europa-América, 1986.
SOARES,
Bernardo. Livro do Desassossego.
Richard Zenith (Ed.). Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.
VERDE,
Cesário. Cânticos do Realismo e Outros
Poemas. Teresa Sobral Cunha
(Ed.). Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2006.
WORDSWORTH, William.
The Prelude 1799, 1805, 1850. J. Wordsworth, M. H. Abrams, S. Gill
(Ed.).
New York; London: W. W. Norton & Company, 1969.
WORDSWORTH, William, COLERIDGE, Samuel T. Lyrical
Ballads. R. L. Brett and A. R.
Jones (Ed.). London; New York: Methuen, 1963.

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